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Criação com apego

Por Natália Almeida*

Falar sobre esse tema, a “criação com apego”, é algo que me motiva e quem me acompanha sabe que sou insistente nesse assunto. Por quê?

Na sua essência a criação com apego significa estabelecer laços que possibilitam a geração de vínculos emocionais fortes e sadios entre a mãe, o pai e a criança. Estes “elos” impactam profundamente no desenvolvimento dos pequenos, tornando-os, sobretudo, mais confiantes e preparados quando jovens e adultos para caminharem pela vida e construírem suas histórias com bases sólidas.

O que precisamos hoje no mundo é mais amor, menos violência, afinal, nossas crianças serão o futuro de nosso planeta! A cada dia a violência no mundo parece pior e está mais relacionada à infância e adolescência do que podemos imaginar, mas apesar disso vivemos numa sociedade que condena a criação com amor e apego.

Com certeza acredito que erramos em alguma coisa no caminho, e um dos aspectos sem dúvida foi na criação baseada na limitação do amor e distanciamento estabelecido pelos condicionamentos.

Além disso, também incluiria como gatilho para problemas emocionais futuros a ausência de apoio ao aleitamento materno e sua substituição por subterfúgios como bicos artificiais entre eles a chupetas e mamadeiras e a ausência dos pais que hoje configura uma verdadeira terceirização do cuidado e criação dos filhos. 

Com certeza indivíduos criados com amor e carinho, que criaram vínculo afetivo e empatia pelos pais e familiares próximos agirão da mesma forma no convívio social, porque os primeiros relacionamentos que estabelecemos são norteadores de toda uma vida e eles são estabelecidos com os nossos pais.

Indivíduos que tiveram um bom relacionamento com os pais e foram criados com amor dificilmente irão se tornar violentos, já os agredidos tendem a tornarem-se agressores.

Gosto muito desses dizeres do pediatra espanhol Carlos Gonzales:  “Devemos dar toda atenção possível a nossos filhos. Nunca será demasiada. Não se pode criar qualquer trauma psicológico por sorrir demasiado à uma criança ou por lhe fazer muitas vezes ‘gugu’.”

O ser humano é um ser social que segue o exemplo dos mais experientes e aprende pelo convívio em comunidade. Nós adultos também precisamos de contato, de carinho, de um ombro amigo quando estamos tristes, compartilhar a mesma cama com nossos parceiros e ninguém questiona esse comportamento. Minha dúvida é porque esperamos que as crianças sejam diferentes, que já saibam dormir a noite toda sozinhas desde o nascimento, que não chorem pelas suas frustações que sem dúvida são diferentes das nossas.

Então o que é criar com apego? É primeiramente respeitar a criança, compreender que ela tem necessidades básicas e instintos primitivos. A criança não é um adulto pequeno como muitos acreditam, pelo contrário é um ser imaturo, indefeso e em desenvolvimento de seus aspectos físicos e emocionais.

Sabemos que o humano é o mamífero que nasce mais imaturo, um bebê nasce sem se quer ser capaz de sustentar a cabeça enquanto outros já nascem andando e por isso não sobreviveria por algumas horas se largado ao relento.

A chamada Teoria da Extero-Gestação explica bem isso, a gestação deveria ter mais um trimestre para que o bebê homo sapiens nascesse mais maduro. Porém, com a evolução para posição ereta, diminuição da cintura pélvica concomitante ao aumento progressivo do cérebro levou o nascimento a ser precoce.

Assim fica simples de entender que um bebê de até três meses se sente confortável com simulação de condições intra-útero, entre elas: balanço, ficar apertadinho, barulho parecido ao ruído do rádio não sintonizado semelhante ao uterino, escutar o coração da mãe. Justamente o contrário do que preconizam: colocar o bebê solto no carrinho, deixar ele chorar no berço, não pegar ele no colo para não deixar mal-acostumado.

Qualquer momento dentro dos mil dias de ouro (período que se estende da gestação até 2 primeiros anos de vida) é crucial. São verdadeiras janelas de oportunidade para desenvolvimento imunológico, neurológico e emocional, hoje conhecido como Sistema Neuro-Endócrino-Imune (NEI).

O que faz um indivíduo inteligente é a inteligência emocional e isso não se consegue com estudos e boas escolas.

A criação com apego já deve começar intra-útero, pois um bebê amado na gestação tem menor risco de ter depressão na vida adulta. Sabemos também que existe um imprinting do estresse que essa mãe sofre e as alteração hormonais consequentes a isso, por isso todo cuidado e atenção à saúde da gestante é primordial!

Após o nascimento ainda na sala de parto estabelecer esse contato entre mãe e filho, toda mulher tem o direito de amamentar seu filho na primeira hora de vida e permanecer com ele em alojamento conjunto. Somos mamíferos e a amamentação é parte de nossas realidades sendo imprescindível também para o desenvolvimento emocional da criança e não estou nem citando todos outros benefícios.

Apoiar essa mãe para que ela consiga amamentar, para que ela entenda ser capaz de nutrir seu filho, para que possa manter o regime de livre demanda e em qualquer lugar, não existe nada de feio em amamentar, pelo contrário não há nada mais lindo que ser nutriz do próprio filho.

Aliás, poucas coisas realizam tanto uma mulher quanto isso. Todo esforço deve ser feito para que isso se concretize. Atender quando o bebê chora, pegar ele no colo, ninar ele no colo e impor os limites com respeito contribui para o desenvolvimento de sua autoestima e autoconfiança, além da empatia pelos outros . Termino com um trecho do psicólogo PhD, Daniel Goleman, quando ele diferencia dois bebês, o número um que chora à noite e a mãe prontamente atende com satisfação e amamenta olhando nos olhos com carinho e outro que a mãe estressada acorda e o trata com desprezo nem se quer fazendo contato visual. Segundo ele, “o primeiro bebê está tendo a certeza de que as pessoas perceberão suas carências e o ajudarão, e que ele é capaz de obter ajuda; o segundo bebê está descobrindo, na realidade, que ninguém lhe dá a mínima, que não é possível contar com as pessoas, e que seus esforços para conseguir consolo são inúteis”.

Ele conclui dizendo: “Claro a maioria dos bebês de vez em quando têm uma provinha de cada um desses tipos de interação. Mas na medida em que uma ou outra é típica de como os pais o tratam ao longo dos anos, ela se constituirá em ensinamentos emocionais básicos que lhe darão a dimensão de sua segurança, do quanto se sentirá eficaz e até onde poderá confiar nos outros.”

Contem comigo para apoiá-los nessa jornada!

*Natália Almeida é pediatra funcional e endocrinologista infantil. É pró-aleitamento materno e criação com apego. Recentemente ingressou numa nova empreitada profissional e agora atua também no Instituto Dr. Barakat.

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