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O freio lingual do bebê interfere na mamada?

Ouve-se com certa frequência depoimentos de mães que relatam muitas dores ao amamentar. Uma delas, certa vez, contou que o bebê estava com 2 meses, e que já havia passado em 3 consultoras de amamentação diferentes, 2 pediatras, doula, sua obstetra e não sabia o que estava acontecendo, porque mesmo corrigindo a pega, fazendo diferentes posições ela ainda sentia muita dor ao amamentar sua bebê. A dor que sentia era em agulhadas, que irradiavam para todo o seio. A dor era quase que insuportável no momento que o bebê fazia a pega, depois amenizava um pouco, mas estava presente o tempo todo. O desejo dela de amamentar era maior, mas ela estava exausta, triste e sem saber mais o que fazer. Não sabia até quando conseguiria aguentar. Para quem vislumbrava uma amamentação longa e prazerosa, isso parecia impossível.

A mãe tinha tentado de tudo, pomadas, laserterapia nas lesões mamilares, bico de silicone pra tentar amenizar a dor,, mas não parecia haver uma melhora completa, a fissura melhorava e cicatrizava…A culpa ainda vinha forte, pois só podia ser culpa dela o porque da amamentação estar indo assim, mesmo com tanta ajuda profissional…

O que então você  deve fazer, se está com dor ou dificuldade para amamentar? 

O primeiro passo é procurar ajuda e avaliação de um profissional especialista em amamentação. Existem diversas causas que podem levar a dor na amamentação e não raras vezes elas ocorrem concomitantes. Precisa observar a característica da fissura no peito, se houver, as características dessa dor, avaliar o bebê, a boca do bebê e a mãe e o peito da mãe. Avaliar a mamada.Detalhadamente. Não é tão simples assim, afinal.

Nesse caso acima, um freio lingual não tão óbvio não foi identificado logo no início, ou não foi dada a devida importância à ele, e essa pequena alteração anatômica trouxe outros inúmeros problemas.

O bebê tem um freio lingual curto, o que isso significa? 

O freio lingual curto é uma pequena membrana que fica abaixo da língua e limita a movimentação da mesma. Parece algo pequeno, porém a limitação da movimentação lingual altera toda a anatomia e a fisiologia da mamada, fazendo com que ocorra inúmeras dificuldades. Trata-se apenas da ponta do iceberg.

O freio lingual curto pode levar à pega incorreta, ou pode até mesmo impedir que o bebê consiga abocanhar o seio, pois o movimento de protusão e elevação da língua estão prejudicados. Isso pode causar uma dificuldade enorme do bebê mamar, e são aqueles quadros em que o bebê muitas vezes dorme no peito ou fica horas e horas mamando, sem parecer satisfeito. Também pode contribuir para um ganho de peso inadequado ou insuficiente do bebê.

Além disso, o bebê não consegue esvaziar a mama adequadamente, levando a ingurgitamento mamário e mastite, e à longo prazo, redução da produção de leite.

E a dor, porque ela ocorre? 

O bebê não consegue fazer a pega correta no seio, levando à pega incorreta. O freio lingual muda a mecânica da mamada fazendo com que essa seja por vezes extremamente dolorosa. Pode levar à fissuras mamilares que não cicatrizam, ou mesmo nenhuma lesão mamilar, mas uma dor absurda devido a pressão que o bebê faz para abocanhar o seio. Algumas mães relatam uma sensação de que está pressionando o mamilo o tempo todo ou uma sensação de lixa no mesmo, ou uma sensação de”esfregar o mamilo no asfalto”.

Como posso saber se meu bebê tem língua presa? 

A melhor forma de saber é realmente ter a avaliação de um profissional habilitado em fazer a avaliação do freio lingual, seja através de testes e também avaliando a mamada. Geralmente essa avaliação é feita por fonoaudiólogas, pediatras especialistas em Amamentação.

O teste da linguinha, já previsto em lei no Brasil desde 2014, realizado nas maternidades, é uma triagem, e pode não identificar todos os freios linguais curtos.

Algumas pistas que seu bebê pode ter freio lingual são:

  • Pega incorreta do bebê, apesar de já corrigido por uma consultora em Amamentação
  • Cliques ou estalos nas mamadas, associado muitas vezes a queixa de refluxo ou muitos gases
  • Bebês que dormem na mamada ou lutam com o peito
  • Baixo ganho de peso do bebê
  • Mãe com fissuras mamilares que não cicatrizam, ou dor na amamentação que não melhora apesar de já haver corrigido pega e posicionamento no peito.

E como resolver esse problema? 

Felizmente, existe tratamento. Consiste num procedimento simples que pode ser feito mesmo em consultório, chamado de frenotomia ou frenectomial lingual. Trata-se de um pequeno corte realizado no freio lingual, para liberação da língua e fazer com que ela tenha a movimentação adequada. Muitas vezes o alívio da dor é imediato. O procedimento, quando feito em bebês, não há necessidade de anestesia nem sedação, e permite que o bebê mame imediatamente no peito após o mesmo.

Além dos benefícios diretos relacionados à amamentação, existem ainda benefícios a longo prazo, como a possibilidade de melhorar a articulação da fala no futuro.

Fonte: Dra. Kelly Marques Oliveira – Pediatra

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